![]() | ||
| Coração do verbo amar |
Os
Semelhantes
«Conhece-te
a ti mesmo,
torna-te consciente da tua ignorância
e serás sábio.»
(Sócrates)
Segundo
Platão, só o semelhante conhece o semelhante. Também é comum dizer-se que os
opostos se atraem. Tanto um aforismo como o outro são verdadeiros, quanto a mim,
nas relações humanas, tanto familiares, sociais, amorosas, comerciais..., nas
suas diversas formas. É comum verificar, por exemplo, uma pessoa calma com
pouco sentido de humor simpatizar e gostar da presença de uma pessoa activa e
divertida. Ambas gozam da presença uma da outra, a primeira porque sente
admiração e prazer, a segunda porque se sente admirada e, por isso, o seu ego
aumenta, e ambas são felizes nesta vivência centrada de opostos. Há uma
atracção por necessidade (uma da outra), desprovida de conhecimento e de
afinidades. Também acontece muito nas relações amorosas, mas estas levam
algumas ao engano, acabando em frustração a médio ou longo prazo, porque teria
de haver adaptação e cedências, difíceis por vezes. Enquanto numa relação
familiar, entre pais e filhos e entre irmãos, são as semelhanças, no seio dos
vários elementos, que constroem os afectos e direcção das atenções; entre
irmãos e irmãs, são as brincadeiras e as cumplicidades. Não me vou alongar a
esmiuçar estas questões tão delicadas, que serão mais do foro da psicologia,
talvez numa outra crónica.
Como
conhecer o nosso semelhante é, quanto a mim, uma questão difícil e que me tem
ocupado a vida inteira. Na Bíblia, amar o próximo será o mesmo que amar o seu
semelhante, uma das leis mais difíceis de cumprir. Como amar o que não se
conhece?
Mais
fácil será amar uma flor, um gato ou um cão. São seres simples e «simpáticos»,
apesar da sua complexidade. Talvez sejamos nós, humanos, que não esperamos mais
do que aquilo que eles nos poderão dar. Porque não o esperamos, aceitamos a sua
condição porque são diferentes de nós, por isso é fácil amar estes seres, que
até nos dão um certo prazer e alegria, por vezes surpresas, pela sua
espontaneidade e leveza. Não complicam a vida, são assim, e não exigimos senão
uma certa disciplina básica. Seria de esperar que conhecêssemos bem toda a
natureza, talvez. Mas não é isso que acontece, não conhecemos de facto, mas
pensamos que conhecemos. Contudo, aceitamos.
E
nós, conhecemo-nos uns aos outros? Conhecemo-nos a nós próprios, pelo menos?
O
aforismo grego «conhece-te a ti mesmo», citado e estudado na Filosofia e na
Literatura desde a Antiguidade, tem tido diversas interpretações ao longo dos
séculos.
Não
podemos conhecer os outros se, antes, não nos conhecermos — por fora e por
dentro — e é esta a verdadeira e fundamental questão do Homem, que continua a recusar
a olhar para si próprio. Talvez porque se recusa a olhar para o outro, a
conhecê-lo, a compreendê-lo, como Homem igual a si próprio, com os mesmos
sonhos, com os mesmos desejos, os mesmos pensamentos. Hobbes afirma: «Mas para
nos ensinar que a semelhança dos pensamentos e paixões de um homem, os
pensamentos e paixões de outro, aquele que olhar para dentro de
si e contemplar o que faz quando pensa, quando opina, quando raciocina, tem
esperança, medo..., e sobre que bases ele deve, assim, ler e saber quais são os
pensamentos e paixões de todos os outros homens sobre as ocasiões parecidas.»
Os
grupos são criados nas semelhanças dos elementos que os compõem, dos seus
gostos e preferências, por exemplo os clubes desportivos, os partidos
políticos, associações de interesses, comunidades, etc. Assim como os grupos de
homens, mulheres e crianças que sofrem a fome, que precisam de comida, têm em
comum a luta pela sobrevivência. Mas também quem tem o poder e a riqueza, que
não passa fome, sabe e tem consciência que o outro não deve viver sem comer,
como ele próprio não o conseguiria. Será fácil um rico saber o que o outro rico
pensa e sente e até se medem na estatura, mas não é fácil um rico pensar o que
sente um pobre, porque o seu pensamento está demasiado ocupado num nível
autodestrutivo de humanidade, está demasiado ocupado a fazer contas sobre
acumulação, perdas e ganhos, descaracterizando-se, fundindo-se com a matéria e
a imagem; perdeu a sensibilidade e a profundidade interior e recusa-se a olhar
para aquele que não se parece nada com ele, deixou de ser seu semelhante. Este
homem não se conhece a ele próprio, conhece o que veste, a casa, o automóvel, a
empresa, a família, como apoio e prolongamento de si próprio, mas não se tem,
não compreende o mundo que não seja o seu, está fora dele. Se um dia cair em
desgraça, então, terá de aprender a olhar para o outro e para si próprio e
descer do seu pedestal até às suas cavernas interiores.
Também
os grupos dos pobres se juntam na sua pobreza, desumanizados, numa luta
incansável pela subsistência, entreajudando-se ou competindo na corrida do quem
chega primeiro para apanhar qualquer coisa para comer. Também eles estão fora
do mundo, desintegrados, não conhecem e não compreendem os ricos.
Em
ambos os casos há semelhanças — na desumanidade — que, de modo nenhum, se
atraem, pelo contrário, estão em posições opostas, como duas margens que vivem em
paralelo, que nunca se tocam nem aproximam. Não terão cérebros estruturados da
mesma forma, mas terão com certeza pensamentos idênticos de vencer a todo o
custo e sonham, não interessa que sonho, sonham igualmente. Entretanto, uns
morrem por terem de menos, outros morrem por terem demais. Uns têm doenças
devido às carências, outros têm doenças devido ao excesso.
Quanta
loucura entre as margens o rio acumula!!? É um rio negro e sujo que aguarda a
redenção do olhar numa nova luz. Conhece-te a ti mesmo e verás por que razão há
quedas financeiras a repousar no lago das tormentas. Conhece-te a ti mesmo e
verás por que razão há quedas que são despertares obrigatórios, com vista à
inclinação das margens, revolvendo o sangue e as luas antes de chegarem ao mar.
O
filósofo Ralph Waldo Emerson escreveu um poema com o título «Conhece-te a ti
mesmo». Acreditava que «Conhecer a si mesmo» significava conhecer a Deus, que
Emerson dizia existir dentro de cada pessoa.
Leia também aqui.

Sem comentários:
Enviar um comentário