segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Para que servem os dias e as noites?

Para que servem os dias e as noites?

Para que servem os dias?

-- Para acordar a noite e despertar
    Na realidade que o sol nos quer mostrar.

Para que servem as noites?
-- Para fugir dos dias que queremos olvidar
    E no tempo sem fim sonhar
    Nas lembranças que tempo não quer abandonar.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A mulher de livre pensamento


A beleza que me cativa... é a liberdade que me chama.

«(...) A felicidade é um contínuo evoluir do desejo, de um objecto a outro; o atingir de um objectivo é, desde logo, o caminho para o próximo. A causa disto é que o objectivo do desejo humano não é ser feliz apenas uma vez, e por um instante; mas assegurar para sempre o caminho do seu desejo futuro.» Hobbes

As pessoas livres de pensamento, que não se subjugam a qualquer tipo de ditadura, procuram apoiar as suas convicções de liberdade, justiça, igualdade onde se sentem melhor, para aí ganharem as forças necessárias e hercúleas numa luta imparável e quase cega, a fim de manter a visão clara e não contaminada das ciladas psicológicas e emocionais quando a acção sopra a chamada.
Um dia tive a ousadia de responder ao meu pai que devia ter nascido homem, quando ele me perguntou porque é que eu trabalhava tanto, e não ter tempo para o ir visitar mais vezes. Entendia que uma mulher deveria ter uma vida calma, sobretudo ligada à casa, e não a viver sempre agitada, sem horários nem fins-de-semana. Como trabalhadora independente a trabalhar numa assoalhada da residência, transformada em escritório, por mais disciplina que tivesse, a tentação era despachar o trabalho pendente antes de chegar um novo, e só me predispunha a sair à rua quando tinha mesmo de sair, fosse pelo trabalho ou por assuntos domésticos.
Compreendi a mensagem do meu pai, mas penso que ele não compreendeu a minha. Poucos homens compreendem esta secreta e profunda vontade da mulher de ser independente e autodeterminada. É difícil e penoso conciliar o trabalho, as lides domésticas e dar apoio à família. Mais difícil se torna quando a mulher tem de se afirmar no trabalho onde tanto os preconceitos como os assédios continuam ainda a ser visíveis. Um homem, por ser homem é livre, casado ou não. É uma liberdade instituída, enraizada. (Não gosto particularmente de chamar machista, talvez pela carga de agressividade que a palavra contém, que me faz lembrar as lutas dos machos no reino animal. O curioso é que estas lutas nos animais são quase sempre entre machos e raramente entre machos e fêmeas.) A sociedade aceita, é tradição. Quanto à mulher, a situação é confusa actualmente. Parece estar numa fase de transição. Apesar de a «revolução sexual» no Ocidente ter começado nos anos 60 do século passado, em Portugal apenas começou nos anos 80. Porque será que Portugal tem de estar atrasado em tudo 20 anos em relação ao resto da Europa? 
Escolhi uma profissão (revisora editorial) para que a pudesse exercer em casa, exactamente para que, quando o marido chegasse do emprego, deixasse de haver discussões porque o jantar não estava ainda pronto. Mas a maioria das mulheres trabalha fora, passa horas nos transportes, faz o horário do emprego, às vezes horas extraordinárias, chega exausta a casa e ainda tem as lides domésticas para cumprir. 
Trabalho desde os 14 anos, com um percurso intermitente nos estudos. Terminados aqueles com sucesso, fui melhorando com o tempo no tipo de empregos, até me decidir a aventurar-me a trabalhar por conta própria. Ensinaram-me em casa que quem não trabalha não come. Os irmãos mais velhos, a trabalhar, tinham de entregar o ordenado aos pais para ajudar a alimentar os irmãos mais novos. Impossível, na minha visão, viver sem trabalhar. (Pudesse eu chegar à idade de uma suposta reforma para poder ler todos os livros que ainda não li, mas até esse prazer penso que me vão retirar.) Se calhar é por isso que a sorte foge aos pobres, vivendo sempre preocupados com o dia de amanhã.
Não é o dinheiro que tiro do trabalho o mais importante, é a auto-realização, o sentimento de ser útil à sociedade, e a mim própria através do que me proporciona o dinheiro, não ficando dependente do marido para comprar umas meias. É a concretização do dever de ser responsável por mim mesma, em toda a dimensão humana, que me traz a alegria de viver numa abertura de espírito condutora de paz interior, na satisfação de coisas simples e básicas, que, por sua vez, disponibilizam uma abertura do pensamento e do olhar numa outra perspectiva –­ todo o manancial lúdico e natural que está ao meu dispor e me aguarda: música, leitura, cinema, natureza, arte… 
Fico perplexa ao ver as notícias sobre a crescente violência doméstica que continua a aumentar diariamente. Tomara que fosse apenas porque essas mulheres (vítimas de violência) se tivessem tornado independentes e, pensando de forma ingénua e simplista, que os maridos não tivessem suportado a «concorrência». Pode ser, adicionando o facto de que a mulher está a aprender a ser livre, não o sendo ainda. Falta estabilizar as forças, por um lado, a do homem, que tem de aprender a conhecer a mulher, de olhar para ela como um ser igual a ele, com as mesmas necessidades e anseios, por outro, a da mulher, que tem de aprender a ser feminina e activa, com o recato a que se deve dar, não querendo substituir-se ao homem. «Todos iguais – todos diferentes» é um slogan que se encaixa muito bem nesta área também. A aceitação no respeito por si próprio e pelo outro.
Ambos precisam de se afirmar perante o amor que os une, e não perante o ordenado que recebem. 
Ambos precisam de respirar o mesmo amor que os envolve, e não respirar tanto os amigos que atrapalham esse amor. 
Ambos precisam de sentir uma auréola de harmonia e de paz, e não sentir as vibrações de emoções alheias que fazem desviar o caminho de um projecto de vida a dois. 
Vencer na vida não é o sucesso visível na aparência material, é a plena alegria na realização da paz e serenidade do crepúsculo do sol e no descanso do luar. Saber dosear a luz e a sombra, a alegria e a melancolia, o riso e a lágrima, fazer da finitude da vida o infinito numa flor.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

José Afonso - Poeta e músico. 30 anos de saudade




Zeca por ele mesmo:
As palavras entontecem.
Quando dispersas levantam vários rumos.


No tempo da penúria, ninguém morre de pasmo. Apurem, meus amigos, vossas contas, que as cordas da justiça já estão prontas. A morte espera-vos na justiça dos tempos. Sei que tudo está escrito e nem mesmo é preciso predizer tantos inventários. Tudo isto é triste... ó magnólias!

Tão pouco pode a natura nestas afrontas mortais. Que um homem morra mil vezes. Mil e uma já é demais.

Nou n´avons rien et nous avons tout.

Que um Deus reme connosco na viagem.




José Afonso não foi apenas cantor popular de intervenção, foi sobretudo um grande poeta e compositor de baladas e de música tradicional. De uma rara sensibilidade humana, foi sempre um lutador pela liberdade e a dignidade. Foi também cantor de fado de Coimbra quando era estudante na Universidade de Coimbra.


 José Afonso ao vivo em 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, naquele que seria o seu último concerto, já doente e com problemas na voz (4 anos antes de morrer). Um concerto memorável, com vários amigos em palco: Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé.




Nasceu em Aveiro em 2 de Agosto de 1929 e faleceu em Setúbal em 23 de Fevereiro de 1987.
Formou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido a profissão de professor do ensino secundário.
A partir de 1969 dedicou-se em exclusivo à actividade musical.
Em 1969, 1970 e 1971 foi distinguido pela Casa da Imprensa como o melhor intérprete da música ligeira.
A sua canção «Grândola Vila Morena», utilizada como sinal de arranque da Revolução de 25 de Abril de 1974, tornou-se uma espécie de hino da liberdade.
A sua produção, como autor e intérprete, reveste-se de uma qualidade ímpar. Todos os seus títulos, desde os fados e baladas de Coimbra até à música de intervenção política, passando pela recolha e adaptação de temas do Cancioneiro Tradicional, se encontram no topo de qualidade da música tradicional portuguesa.


Grândola, Vila Morena é a canção composta e cantada por Zeca Afonso escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução. A canção refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo, e teria sido banida pelo regime salazarista como uma canção associada ao Comunismo. Às zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, a canção era transmitida na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar as operações militares. E assim ficou associada ao 25 de Abril e ao fim da ditadura e ao início da democracia em Portugal.


Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada

Na madrugada, na madrugada



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada

Vira a proa da minha barca.



Discografia:
- Fados de Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962, colectivo)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Venham Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República (LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975, não editado em Portugal)
- Com as Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976, gravado ao vivo)
- Enquanto Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura (LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Ao Vivo no Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983, gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985, inclui Como Se Fora Seu Filho / Galinhas do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Os Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (CD, EMI-VC, 1992, colectivo)
- Zeca Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993, concerto integral)
- De Capa e Batina (CD, Movieplay, 1996)
- José Afonso (2CD, Movieplay, 2001, colectânea)
Fontes:

- Site da Associação José Afonso http://www.aja.pt/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

São cerejas, amor

Pingos de amor - Paixão suculenta (imagem Google editada pela aurora)




São cerejas, amor,


Belas e brilhantes

Da cor do sangue

Suculentas sem dor

Amores semelhantes



Aos pares brincam

No calor sem pudor

Nas alturas de excitação

Em liberdade se tocam

Mudando a cor a rubor



Ficam negras de paixão

Fingem amor de prazer

Trocam cem beijos mil

Maduram à exaustão

Êxtases de corar fazer

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Sobre o Pensamento

Apenas na flor / Resiste a beleza. / Eterna leveza / Semente de amor.
(Foto original da autora)



A vida não é longa nem curta,
é a utilidade que lhe dá o tempo
no ritmo do pensamento,
haja dor ou amor que furta
no compasso do coração. 
.

«É um defeito bastante comum, entre os homens, julgar de forma imprudente as acções e as intenções dos outros. E nele se cai, apenas, devido a um mau raciocínio, pelo qual, por não se conhecer de modo suficientemente distinto todas as causas que podem produzir um qualquer efeito, se atribui tal efeito precisamente a uma causa, quando pode, muito bem, ter sido causado por muitas outras (…)»

(Aristóteles, «A Lógica ou A arte de Pensar»).



Este texto de Aristóteles, escrito há 18 séculos, em que enumera e define as boas regras de um bom raciocínio, parece ter sido usado apenas para filósofos e eruditos, aqueles que detiveram, ao longo do tempo, o domínio da escrita e da leitura. O povo não foi beneficiado, para que se mantivesse na ignorância, e, assim, obedecer cegamente aos vários tipos de poder.

Com a Revolução Industrial e a respectiva ascensão de uma nova burguesia com poder económico, o ensino alargou-se, abrindo uma brecha para uma nova sociedade, a chamada Sociedade Moderna.

Em Portugal, apenas 0,8 por cento dos portugueses atingiu o ensino superior nos anos 60 do século xx, e, embora já fosse obrigatório o ensino básico até ao 4.º ano, 37,8 por cento completaram o 1.º ciclo do Ensino Básico (números contidos na obra de Mariana Gaio Alves, A Inserção Profissional de Diplomados de Ensino Superior numa Perspectiva Educativa: O Caso da Faculdade de Ciências e Tecnologia, 2007). Passados mais de 40 anos do 25 de Abril de 1974, só recentemente passou a ser obrigatório o 12.º ano.

Como podemos saber raciocinar se não possuirmos o conhecimento e a capacidade de análise? Apesar da falta de literacia, os pais dos anos 50 e 60 regeram-se pela redobrada atenção sobre os filhos e nas boas práticas de boa educação, ensinando a distinguir o bem do mal.

Todos os seres humanos possuem pensamento, uma área cerebral própria munida de ferramentas para raciocinar. Mas o cérebro funciona com o que traz na sua genética ao nascer, o restante é formado pelas várias aprendizagens e leituras, em suma, pelo que vai adquirindo e assimilando ao longo da vida do indivíduo. Ou seja, o cérebro é formatado pelo indivíduo que o possui, e é ele, indivíduo, o responsável pelo que nele próprio «deposita».

Ora, a vida dos indivíduos, no geral, e de cada um em particular, nos nossos dias, gira à volta dos bens materiais, influenciados pela publicidade, pelos medias (que informam de modo filtrado), filmes (que, normalmente, integram violência, sexo ou emoções fortes), telenovelas (com cenas de intriga, inveja, ciúme, violência, arrogância e outras).

Penso que não estamos no trajecto da construção de mentes sãs, nem a formar cérebros que saibam pensar com o conhecimento necessário a julgar a si próprios e muito menos os outros.

Numa próxima crónica darei continuidade a este tema, para que esta não seja demasiado longa.