«A medida do amor é amar sem medida», Sto. Agostinho /
«Se as crianças se desenvolvessem tal como são a princípio, só haveria homens de génio neste mundo», Johann Wolfgang Goethe
A beleza que me cativa... é a liberdade que me chama.
«(...) A felicidade é um contínuo evoluir do desejo, de um objecto a
outro; o atingir de um objectivo é, desde logo, o caminho para o
próximo. A causa disto é que o objectivo do desejo humano não é ser
feliz apenas uma vez, e por um instante; mas assegurar para sempre o
caminho do seu desejo futuro.» Hobbes
As pessoas livres de pensamento, que não se subjugam a qualquer tipo de
ditadura, procuram apoiar as suas convicções de liberdade, justiça,
igualdade onde se sentem melhor, para aí ganharem as forças necessárias e
hercúleas numa luta imparável e quase cega, a fim de manter a visão
clara e não contaminada das ciladas psicológicas e emocionais quando a
acção sopra a chamada.
Um dia tive a ousadia de responder ao meu pai que devia ter nascido
homem, quando ele me perguntou porque é que eu trabalhava tanto, e não
ter tempo para o ir visitar mais vezes. Entendia que uma mulher deveria
ter uma vida calma, sobretudo ligada à casa, e não a viver sempre
agitada, sem horários nem fins-de-semana. Como trabalhadora independente
a trabalhar numa assoalhada da residência, transformada em escritório,
por mais disciplina que tivesse, a tentação era despachar o trabalho
pendente antes de chegar um novo, e só me predispunha a sair à rua
quando tinha mesmo de sair, fosse pelo trabalho ou por assuntos
domésticos.
Compreendi a mensagem do meu pai, mas penso que ele não compreendeu a
minha. Poucos homens compreendem esta secreta e profunda vontade da
mulher de ser independente e autodeterminada. É difícil e penoso
conciliar o trabalho, as lides domésticas e dar apoio à família. Mais
difícil se torna quando a mulher tem de se afirmar no trabalho onde
tanto os preconceitos como os assédios continuam ainda a ser visíveis.
Um homem, por ser homem é livre, casado ou não. É uma liberdade
instituída, enraizada. (Não gosto particularmente de chamar machista,
talvez pela carga de agressividade que a palavra contém, que me faz
lembrar as lutas dos machos no reino animal. O curioso é que estas lutas
nos animais são quase sempre entre machos e raramente entre machos e
fêmeas.) A sociedade aceita, é tradição. Quanto à mulher, a situação é
confusa actualmente. Parece estar numa fase de transição. Apesar de a
«revolução sexual» no Ocidente ter começado nos anos 60 do século
passado, em Portugal apenas começou nos anos 80. Porque será que
Portugal tem de estar atrasado em tudo 20 anos em relação ao resto da
Europa?
Escolhi uma profissão (revisora editorial) para que a pudesse exercer em
casa, exactamente para que, quando o marido chegasse do emprego,
deixasse de haver discussões porque o jantar não estava ainda pronto.
Mas a maioria das mulheres trabalha fora, passa horas nos transportes,
faz o horário do emprego, às vezes horas extraordinárias, chega exausta a casa e ainda tem as lides domésticas para cumprir.
Trabalho desde os 14 anos, com um percurso intermitente nos estudos.
Terminados aqueles com sucesso, fui melhorando com o tempo no tipo de
empregos, até me decidir a aventurar-me a trabalhar por conta própria.
Ensinaram-me em casa que quem não trabalha não come. Os irmãos mais
velhos, a trabalhar, tinham de entregar o ordenado aos pais para ajudar a
alimentar os irmãos mais novos. Impossível, na minha visão, viver sem
trabalhar. (Pudesse eu chegar à idade de uma suposta reforma para poder
ler todos os livros que ainda não li, mas até esse prazer penso que me
vão retirar.) Se calhar é por isso que a sorte foge aos pobres, vivendo
sempre preocupados com o dia de amanhã.
Não é o dinheiro que tiro do trabalho o mais importante, é a
auto-realização, o sentimento de ser útil à sociedade, e a mim própria
através do que me proporciona o dinheiro, não ficando dependente do
marido para comprar umas meias. É a concretização do dever de ser
responsável por mim mesma, em toda a dimensão humana, que me traz a
alegria de viver numa abertura de espírito condutora de paz interior, na
satisfação de coisas simples e básicas, que, por sua vez,
disponibilizam uma abertura do pensamento e do olhar numa outra
perspectiva – todo o manancial lúdico e natural que está ao meu dispor
e me aguarda: música, leitura, cinema, natureza, arte…
Fico perplexa ao ver as notícias sobre a crescente violência doméstica
que continua a aumentar diariamente. Tomara que fosse apenas porque
essas mulheres (vítimas de violência) se tivessem tornado independentes
e, pensando de forma ingénua e simplista, que os maridos não tivessem
suportado a «concorrência». Pode ser, adicionando o facto de que a
mulher está a aprender a ser livre, não o sendo ainda. Falta estabilizar
as forças, por um lado, a do homem, que tem de aprender a conhecer a
mulher, de olhar para ela como um ser igual a ele, com as mesmas
necessidades e anseios, por outro, a da mulher, que tem de aprender a
ser feminina e activa, com o recato a que se deve dar, não querendo
substituir-se ao homem. «Todos iguais – todos diferentes» é um slogan
que se encaixa muito bem nesta área também. A aceitação no respeito por
si próprio e pelo outro.
Ambos precisam de se afirmar perante o amor que os une, e não perante o ordenado que recebem.
Ambos precisam de respirar o mesmo amor que os envolve, e não respirar tanto os amigos que atrapalham esse amor.
Ambos precisam de sentir uma auréola de harmonia e de paz, e não sentir
as vibrações de emoções alheias que fazem desviar o caminho de um
projecto de vida a dois.
Vencer na vida não é o sucesso visível na aparência material, é a plena
alegria na realização da paz e serenidade do crepúsculo do sol e no
descanso do luar. Saber dosear a luz e a sombra, a alegria e a
melancolia, o riso e a lágrima, fazer da finitude da vida o infinito
numa flor.
Zeca por ele mesmo: As palavras entontecem. Quando dispersas levantam vários rumos.
No tempo da penúria, ninguém morre de pasmo. Apurem, meus amigos, vossas contas, que as cordas da justiça já estão prontas. A morte espera-vos na justiça dos tempos. Sei que tudo está escrito e nem mesmo é preciso predizer tantos inventários. Tudo isto é triste... ó magnólias!
Tão pouco pode a natura nestas afrontas mortais. Que um homem morra mil vezes. Mil e uma já é demais.
Nou n´avons rien et nous avons tout.
Que um Deus reme connosco na viagem.
José Afonso não foi apenas cantor popular de intervenção, foi sobretudo um grande poeta e compositor de baladas e de música tradicional. De uma rara sensibilidade humana, foi sempre um lutador pela liberdade e a dignidade. Foi também cantor de fado de Coimbra quando era estudante na Universidade de Coimbra.
José Afonso ao vivo em 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, naquele que seria o seu último concerto, já doente e com problemas na voz (4 anos antes de morrer). Um concerto memorável, com vários amigos em palco: Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé.
Nasceu em Aveiro em 2 de Agosto de 1929 e faleceu em Setúbal em 23 de Fevereiro de 1987. Formou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido a profissão de professor do ensino secundário. A partir de 1969 dedicou-se em exclusivo à actividade musical. Em 1969, 1970 e 1971 foi distinguido pela Casa da Imprensa como o melhor intérprete da música ligeira. A sua canção «Grândola Vila Morena», utilizada como sinal de arranque da Revolução de 25 de Abril de 1974, tornou-se uma espécie de hino da liberdade. A sua produção, como autor e intérprete, reveste-se de uma qualidade ímpar. Todos os seus títulos, desde os fados e baladas de Coimbra até à música de intervenção política, passando pela recolha e adaptação de temas do Cancioneiro Tradicional, se encontram no topo de qualidade da música tradicional portuguesa.
Grândola, Vila Morena é a canção composta e
cantada por Zeca Afonso escolhida pelo Movimento das Forças Armadas
(MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução. A canção
refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo, e teria
sido banida pelo regime salazarista como uma canção associada ao Comunismo. Às
zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, a canção era transmitida
na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar
as operações militares. E assim ficou associada ao 25 de Abril e ao fim da ditadura e ao início da democracia em Portugal.
Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
Somos filhos
da madrugada
Pelas praias
do mar nos vamos
À procura de
quem nos traga
Verde oliva
de flor nos ramos
Navegamos de
vaga em vaga
Não soubemos
de dor nem mágoa
Pelas praia
do mar nos vamos
À procura da
manhã clara
Lá do cimo
de uma montanha
Acendemos
uma fogueira
Para não se
apagar a chama
Que dá vida
na noite inteira
Mensageira
pomba chamada
Companheira
da madrugada
Quando a
noite vier que venha
Lá do cimo
de uma montanha
Onde o vento
cortou amarras
Largaremos
p'la noite fora
Onde há
sempre uma boa estrela
Noite e dia
ao romper da aurora
Vira a proa
minha galera
Que a
vitória já não espera
Fresca,
brisa, moira encantada
Vira a proa
da minha barca.
Discografia:
- Fados de
Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de
Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de
Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do
Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra
Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962, colectivo)
- Baladas de
Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de
Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares
de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
Apenas na flor /
Resiste a beleza. / Eterna leveza / Semente de amor.
(Foto original da
autora)
A vida não é longa nem curta,
é a utilidade que lhe dá o tempo
no ritmo do pensamento, haja dor ou amor que furta
no compasso do coração.
.
«É um defeito bastante
comum, entre os homens, julgar de forma imprudente as acções e as intenções dos
outros. E nele se cai, apenas, devido a um mau raciocínio, pelo qual, por não
se conhecer de modo suficientemente distinto todas as causas que podem produzir
um qualquer efeito, se atribui tal efeito precisamente a uma causa, quando
pode, muito bem, ter sido causado por muitas outras (…)»
(Aristóteles, «A
Lógica ou A arte de Pensar»).
Este texto de
Aristóteles, escrito há 18 séculos, em que enumera e define as boas regras de
um bom raciocínio, parece ter sido usado apenas para filósofos e eruditos,
aqueles que detiveram, ao longo do tempo, o domínio da escrita e da leitura. O
povo não foi beneficiado, para que se mantivesse na ignorância, e, assim,
obedecer cegamente aos vários tipos de poder.
Com a Revolução
Industrial e a respectiva ascensão de uma nova burguesia com poder económico, o
ensino alargou-se, abrindo uma brecha para uma nova sociedade, a chamada
Sociedade Moderna.
Em Portugal, apenas 0,8
por cento dos portugueses atingiu o ensino superior nos anos 60 do século xx, e,
embora já fosse obrigatório o ensino básico até ao 4.º ano, 37,8 por cento
completaram o 1.º ciclo do Ensino Básico (números contidos na obra de Mariana
Gaio Alves, A Inserção Profissional de
Diplomados de Ensino Superior numa Perspectiva Educativa: O Caso da Faculdade
de Ciências e Tecnologia, 2007). Passados mais de 40 anos do 25 de Abril de
1974, só recentemente passou a ser obrigatório o 12.º ano.
Como podemos saber
raciocinar se não possuirmos o conhecimento e a capacidade de análise? Apesar
da falta de literacia, os pais dos anos 50 e 60 regeram-se pela redobrada
atenção sobre os filhos e nas boas práticas de boa educação, ensinando a distinguir
o bem do mal.
Todos os seres humanos
possuem pensamento, uma área cerebral própria munida de ferramentas para
raciocinar. Mas o cérebro funciona com o que traz na sua genética ao nascer, o
restante é formado pelas várias aprendizagens e leituras, em suma, pelo que vai
adquirindo e assimilando ao longo da vida do indivíduo. Ou seja, o cérebro é
formatado pelo indivíduo que o possui, e é ele, indivíduo, o responsável pelo
que nele próprio «deposita».
Ora, a vida dos
indivíduos, no geral, e de cada um em particular, nos nossos dias, gira à volta
dos bens materiais, influenciados pela publicidade, pelos medias (que informam
de modo filtrado), filmes (que, normalmente, integram violência, sexo ou
emoções fortes), telenovelas (com cenas de intriga, inveja, ciúme, violência,
arrogância e outras).
Penso que não estamos
no trajecto da construção de mentes sãs, nem a formar cérebros que saibam
pensar com o conhecimento necessário a julgar a si próprios e muito menos os
outros.
Numa próxima crónica
darei continuidade a este tema, para que esta não seja demasiado longa.