domingo, 14 de outubro de 2018

Sou filha das aves


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Sou filha das aves
Nas asas a força e o esplendor
Que me levam.. elevam
Onde o impossível não chega.
Acalmo as tempestades
Com o fogo das estrelas.
...
Dou vida à flor que plantei
No bico de uma lua de cinzas
E o sol é o meu guia
Nos lampejos da paixão
Que me tatuaram um dia.
...
Mas no azul não saio do enigma
Que me lança fora de mim
Onde mais me sinto
Numa prisão
E liberdade sem fim.

domingo, 3 de junho de 2018

Um cálice

Pérolas minhas.



Do sangue vertido das pedras

Em cada pé fiz um cálice

Do tempo a sua medida.

...
Dão-me  calor e conforto
Nas tempestades do  inverno
Que ensombra a memória.
...
E no verão não deixam
Abrandar a ternura
De pisar a areia branca
De uma  praia molhada.
...
Docemente me levam
À vida com frescura
...
Como quem anda
Por cima das águas.
Meu corpo assenta em duas pérolas
Que deslizam sobre as pétalas.

sábado, 28 de abril de 2018

Criança-milagre


Manipula-se a semente,
Que jorra em abundância
Dá para toda a gente,
E qualquer circunstância.

Fresca ou criopreservada
A semente  garante
Prol diversificada
E produção constante.

Anónimo não se sente,
Alivia contentes ânsias,
Até pode ser demente
Importa é a substância.

A vida humana está em saldo.
Gâmetas, células, embriões
Estão suspensos num caldo
Para toda a barriga e milhões.

Nasce a criança-milagre
Que da loucura nada sabe
E um dia prova o vinagre
Da cor que lhe não cabe.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Estamos enganados

«Grândola Vila Morena», de José Afonso


Estamos todos enganados!
Não vivemos em democracia.


Ela tem morada na sua casa 
Coisas de luxos e mordomias,
Paredes, portas, janelas e brasas
Assembleias, grandes salas vazias.
(...)
Afinal a democracia é proprietária,
Paga a turistas e a quem lá mora
Dá solenes galas a grande faixa etária
E acolhe a banca com juros de mora.

A democracia é preversa e vaidosa
Pavoneia-se nos seus corredores
Com espelhos de água impiedosa
Que reflectem velhas sombras e bolores.

Maliciosos e secretos desejos almeja
Como mulher de vida perdida
Impura dá o corpo a quem a beija
Faz-se cara e, leviana, contrai dívidas.

Afinal, a democracia não é alternativa
Está fechada... e eu não sabia.

sexta-feira, 16 de março de 2018

O poeta desperta



Entre a ligeireza

que insulta

no desprezo

 

e a dor
que abate
o orgulho
______
sereno é meditar
fazer subir o olhar
...
à borboleta
no seu voltear.
______
O sono limpa e acalma,
ordena e recupera
fragmentada
grita nos destroços
refaz  inteira 
a alma
...
luta imparável
nega e renega
acolhe
rejeita
abraça
e beija
o inseparável
...
O poeta desperta
baloiça abismos
e a poesia
palavra
sorriso
sonho
liberta.

terça-feira, 6 de março de 2018

A pensar que vive


Eu não vivo porque existe a morte, 
nem a morte me dá mais vontade de viver. 

Viver a pensar na morte, 
é morrer a pensar que vive.