sábado, 28 de abril de 2018

Criança-milagre


Manipula-se a semente,
Que jorra em abundância
Dá para toda a gente,
E qualquer circunstância.

Fresca ou criopreservada
A semente  garante
Prol diversificada
E produção constante.

Anónimo não se sente,
Alivia contentes ânsias,
Até pode ser demente
Importa é a substância.

A vida humana está em saldo.
Gâmetas, células, embriões
Estão suspensos num caldo
Para toda a barriga e milhões.

Nasce a criança-milagre
Que da loucura nada sabe
E um dia prova o vinagre
Da cor que lhe não cabe.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Estamos enganados

«Grândola Vila Morena», de José Afonso


Estamos todos enganados!
Não vivemos em democracia.


Ela tem morada na sua casa 
Coisas de luxos e mordomias,
Paredes, portas, janelas e brasas
Assembleias, grandes salas vazias.
(...)
Afinal a democracia é proprietária,
Paga a turistas e a quem lá mora
Dá solenes galas a grande faixa etária
E acolhe a banca com juros de mora.

A democracia é preversa e vaidosa
Pavoneia-se nos seus corredores
Com espelhos de água impiedosa
Que reflectem velhas sombras e bolores.

Maliciosos e secretos desejos almeja
Como mulher de vida perdida
Impura dá o corpo a quem a beija
Faz-se cara e, leviana, contrai dívidas.

Afinal, a democracia não é alternativa
Está fechada... e eu não sabia.