domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crise

Abandonos (foto original da autora)

De assalto noutra era emigrado
Mala carregada de esperança
Ilegal na noite, levou afoitado
A família, no bolso da segurança

A fome e a miséria no lar deixadas
Foram substituídas pela saudade
Num envelope de lágrimas pintadas
Marcadas em severa pontualidade

E o tempo passado poupando
Em séria regularidade no banco
E um dia vem sobre rodas andando
E a moradia constrói de solavanco

Generoso foi o tempo regado
De silêncio e longo sofrimento
Tempo do nada remodelado
Convicto do final do tormento

Chega a alegria na Primavera
Brilhando asas nos sorrisos cantos
Semearam todas as terras de eras
Culturas em tapetes de encantos

Chamava-se democracia
Chamava-se liberdade
Tudo o que o povo queria
Pão e mesa em igualdade

Vem o poder que tudo pode
De longo e negro manto vestido
Com artes de magia artrópode
Nos mais fracos, é sabido

Dizem que é para a grande nação
O dourado armazém fazem oculto
Laborando sem parar em comunhão
E intimidades com o jurisconsulto

É o tempo da fartura do tudo
Em que tudo é o todo permitido
E o povo em nada abarca mudo
Dualidade humana sem sentido

Morrem os fracos, sua condição
De fome até aos ossos corroídos
Andam pelas ruas da mendigação
Dormem no frio chão empedernidos

Da mochila os cérebros doutores
Com autorização legal e a pedido
No portátil carregam as flores
A mudança e o rumo exigido
Loucos são os homens
Desesperados na loucura
Que procuram em vão
Cegos de tanta procura
(Poema original da autora, publicado na colectânea «Poemas de Combate à Crise», das Edições Vieira da Silva)

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