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| Balança da justiça |
Ontem, dia 1 de Setembro, inaugurou-se mais um ano judicial pautado,
como sempre, com os melhores valores e declarações de boas intenções,
onde não faltaram os eruditos discursos de orientação e a apresentação
de novidades para o sistema, tendo na assistência as mais altas
personalidades do governo e do sistema judicial, inclusive advogados e a
respectiva Ordem.
A justiça é o maior pilar da democracia que rege o país na sua
necessidade de ordem e respeito pelas leis. Vivemos numa sociedade onde o
desequilíbrio é maior que o equilíbrio numa balança torta e mal
calibrada. Por isso, todos os anos o sistema acerta a agulha da balança
procurando calibrar o sistema, sobretudo nos discursos. Com efeito, a
balança estava e continua dobrada, independentemente do Ministro da
Justiça que estiver à frente, apesar de todos os esforços.
O ser humano não é perfeito, mas devia viver pensando na sua perfeição.
Queremos liberdade, queremos direitos, queremos estabilidade, queremos
paz e, sobretudo, queremos prosperidade. São direitos que todos os seres
humanos almejam e por isso lutam incansavelmente.
A liberdade pode proporcionar os maiores bens da terra, mas também se
arrisca a fazer nascer os maiores males. Infelizmente é isso que está a
acontecer. Há novas leis diariamente… leis a corrigir leis, códigos a
corrigir códigos anteriores, ao longo de anos, mudanças de procedimentos
constantes… e nunca mais se acerta a balança. Há os advogados de defesa
e os advogados de acusação, o Ministério Público e o juiz que tudo
determina e julga, conforme as testemunhas, além das instâncias
superiores, cada um com as suas leis e manipulações. É muita gente a
raciocinar e a inquirir sobre um só processo (não falo aqui de outros
meios, nomeadamente policiais, que também fazem parte do sistema). E
todos querem ganhar… e todos querem ter razão – o que acusa e o acusado,
servindo-se, às vezes, vergonhosamente do sistema, através de todos
meios possíveis e até imaginários. As vítimas são e serão sempre
vítimas, traumatizadas para o resto da vida e os acusados usufruem dos
direitos humanos, da generosidade do sistema nas pessoas que mexem e
decidem sobre os processos. O acto de se cometer um crime deve-se ao
carácter e à má-formação da pessoa de quem o comete, mas também à
liberdade do sistema que o permite. O sistema está a criar uma onda de
psicopatas e de corruptos como nunca. Sempre houve, é verdade. Mas onde
entra a educação, a literacia, o respeito pelos outros, pelo sistema,
pelas leis? Seria suposto que com tanta liberdade, educação e bem-estar,
o Português evoluísse noutro sentido. Dizem que sempre houve crimes de
todo o tipo, inclusive violência doméstica, mas que não se via, não se
sabia. Tenho de discordar. O número aumentou exponencialmente, assim
como a violência nas escolas, para não falar de outros crimes.
A sociedade está dividida em dois e não sei para que lado pende a
balança. Vejo ao meu redor pequenas transgressões à lei e faltas de
respeito pelos outros por tudo e por nada. Hoje não tem importância,
terá com certeza dentro de alguns anos, quando o excesso de confiança
for o estado psicológico predominante. A mentalidade é formada pelos
actos e pensamentos e de todo o seu conteúdo, que é transportada ao
longo da vida para outros níveis de actuação, conforme as necessidades.
Passa de pais para filhos e estes, chegada a altura, podem melhorar a
sua forma de vida em sociedade, ou podem agudizar ainda mais a estrutura
egoísta e egocêntrica, fazendo da vida um pequeno inferno para eles e
para os outros. Se a tentação pelo proibido, a cobiça, a inveja, a
ganância, a mentira… e, hoje, a falsa necessidade de adrenalina, ou o
pseudo-stress que gera perturbações mentais, ou a insegurança nas
relações que desestrutura a família, ou a falta de controlo das emoções,
ou a corrupção, muito pequena, pequena, média e grande, provocam o
entupimento dos tribunais, ou a ineficácia dos serviços públicos, então
todos os que cometem actos (a dar ou a receber) que contenham aqueles
pressupostos são transgressores, criminosos ou potenciais criminosos. No
fundo, fazer um jeito ao amigo não é grave… como se fosse o compincha
da carteira do lado, na escola, que lhe mostra por baixo da mesa a
cábula que trouxe de casa. Tudo é normal. E depois é adulto e quer ser
igual e ter o mesmo que os outros, que aprenderam a lição, e pede ao
antigo colega de escola, bem posicionado na administração, até da
justiça, que lhe faça um favor sem importância.
Desde cedo estruturei-me tendo por base valores cristãos, cristalizados
mais tarde numa consciência de cidadania cívica e ética com conhecimento dos
direito e dos deveres. Considero-me uma pessoa civilizada e determinada,
no respeito pelos outros e assim vivi até hoje. Embora, ao longo da
vida me tenha deparado com algumas situações que me desagradaram,
preferi seguir em frente do que dar importância e querer justiça à minha
ofensa. Achava que a justiça seria para os casos mesmo graves. E deixei
em aberto, a quem me ofendeu, a possibilidade, ou oportunidade, de
olhar para a sua consciência e ver o que fez. A isto chama-se, acho eu,
um modo de fazer a paz. Acreditava e via a justiça como uma valor
superior. Hoje, já não consigo pensar assim.
A minha linguagem é diferente da linguagem dos meus vizinhos. Para eles
tudo é uma brincadeira e um desafio. Se perdem um processo, vingam-se e
ainda fazem pior. Se ganham (ninguém sabe como) vangloriam-se e ganham
confiança para continuar. Roubar e mentir, manipular funcionários
públicos e até juízes, e difamar, com uma apurada engenharia mental de
estrategas, tudo faz parte das regras deste jogo, que forma a doença, de
que toda a gente prefere ignorar.

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