| A beleza que me cativa... é a liberdade que me chama. |
«(...) A felicidade é um contínuo evoluir do desejo, de um objecto a outro; o atingir de um objectivo é, desde logo, o caminho para o próximo. A causa disto é que o objectivo do desejo humano não é ser feliz apenas uma vez, e por um instante; mas assegurar para sempre o caminho do seu desejo futuro.» Hobbes
As pessoas livres de pensamento, que não se subjugam a qualquer tipo de
ditadura, procuram apoiar as suas convicções de liberdade, justiça,
igualdade onde se sentem melhor, para aí ganharem as forças necessárias e
hercúleas numa luta imparável e quase cega, a fim de manter a visão
clara e não contaminada das ciladas psicológicas e emocionais quando a
acção sopra a chamada.
Um dia tive a ousadia de responder ao meu pai que devia ter nascido
homem, quando ele me perguntou porque é que eu trabalhava tanto, e não
ter tempo para o ir visitar mais vezes. Entendia que uma mulher deveria
ter uma vida calma, sobretudo ligada à casa, e não a viver sempre
agitada, sem horários nem fins-de-semana. Como trabalhadora independente
a trabalhar numa assoalhada da residência, transformada em escritório,
por mais disciplina que tivesse, a tentação era despachar o trabalho
pendente antes de chegar um novo, e só me predispunha a sair à rua
quando tinha mesmo de sair, fosse pelo trabalho ou por assuntos
domésticos.
Compreendi a mensagem do meu pai, mas penso que ele não compreendeu a
minha. Poucos homens compreendem esta secreta e profunda vontade da
mulher de ser independente e autodeterminada. É difícil e penoso
conciliar o trabalho, as lides domésticas e dar apoio à família. Mais
difícil se torna quando a mulher tem de se afirmar no trabalho onde
tanto os preconceitos como os assédios continuam ainda a ser visíveis.
Um homem, por ser homem é livre, casado ou não. É uma liberdade
instituída, enraizada. (Não gosto particularmente de chamar machista,
talvez pela carga de agressividade que a palavra contém, que me faz
lembrar as lutas dos machos no reino animal. O curioso é que estas lutas
nos animais são quase sempre entre machos e raramente entre machos e
fêmeas.) A sociedade aceita, é tradição. Quanto à mulher, a situação é
confusa actualmente. Parece estar numa fase de transição. Apesar de a
«revolução sexual» no Ocidente ter começado nos anos 60 do século
passado, em Portugal apenas começou nos anos 80. Porque será que
Portugal tem de estar atrasado em tudo 20 anos em relação ao resto da
Europa?
Escolhi uma profissão (revisora editorial) para que a pudesse exercer em
casa, exactamente para que, quando o marido chegasse do emprego,
deixasse de haver discussões porque o jantar não estava ainda pronto.
Mas a maioria das mulheres trabalha fora, passa horas nos transportes,
faz o horário do emprego, às vezes horas extraordinárias, chega exausta a casa e ainda tem as lides domésticas para cumprir.
Trabalho desde os 14 anos, com um percurso intermitente nos estudos.
Terminados aqueles com sucesso, fui melhorando com o tempo no tipo de
empregos, até me decidir a aventurar-me a trabalhar por conta própria.
Ensinaram-me em casa que quem não trabalha não come. Os irmãos mais
velhos, a trabalhar, tinham de entregar o ordenado aos pais para ajudar a
alimentar os irmãos mais novos. Impossível, na minha visão, viver sem
trabalhar. (Pudesse eu chegar à idade de uma suposta reforma para poder
ler todos os livros que ainda não li, mas até esse prazer penso que me
vão retirar.) Se calhar é por isso que a sorte foge aos pobres, vivendo
sempre preocupados com o dia de amanhã.
Não é o dinheiro que tiro do trabalho o mais importante, é a
auto-realização, o sentimento de ser útil à sociedade, e a mim própria
através do que me proporciona o dinheiro, não ficando dependente do
marido para comprar umas meias. É a concretização do dever de ser
responsável por mim mesma, em toda a dimensão humana, que me traz a
alegria de viver numa abertura de espírito condutora de paz interior, na
satisfação de coisas simples e básicas, que, por sua vez,
disponibilizam uma abertura do pensamento e do olhar numa outra
perspectiva – todo o manancial lúdico e natural que está ao meu dispor
e me aguarda: música, leitura, cinema, natureza, arte…
Fico perplexa ao ver as notícias sobre a crescente violência doméstica
que continua a aumentar diariamente. Tomara que fosse apenas porque
essas mulheres (vítimas de violência) se tivessem tornado independentes
e, pensando de forma ingénua e simplista, que os maridos não tivessem
suportado a «concorrência». Pode ser, adicionando o facto de que a
mulher está a aprender a ser livre, não o sendo ainda. Falta estabilizar
as forças, por um lado, a do homem, que tem de aprender a conhecer a
mulher, de olhar para ela como um ser igual a ele, com as mesmas
necessidades e anseios, por outro, a da mulher, que tem de aprender a
ser feminina e activa, com o recato a que se deve dar, não querendo
substituir-se ao homem. «Todos iguais – todos diferentes» é um slogan
que se encaixa muito bem nesta área também. A aceitação no respeito por
si próprio e pelo outro.
Ambos precisam de se afirmar perante o amor que os une, e não perante o ordenado que recebem.
Ambos precisam de respirar o mesmo amor que os envolve, e não respirar tanto os amigos que atrapalham esse amor.
Ambos precisam de sentir uma auréola de harmonia e de paz, e não sentir
as vibrações de emoções alheias que fazem desviar o caminho de um
projecto de vida a dois.
Vencer na vida não é o sucesso visível na aparência material, é a plena
alegria na realização da paz e serenidade do crepúsculo do sol e no
descanso do luar. Saber dosear a luz e a sombra, a alegria e a
melancolia, o riso e a lágrima, fazer da finitude da vida o infinito
numa flor.
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