Zeca por ele mesmo:
As palavras entontecem.
Quando dispersas levantam vários rumos.
No tempo da penúria, ninguém morre de pasmo. Apurem, meus amigos, vossas contas, que as cordas da justiça já estão prontas. A morte espera-vos na justiça dos tempos. Sei que tudo está escrito e nem mesmo é preciso predizer tantos inventários. Tudo isto é triste... ó magnólias!
Tão pouco pode a natura nestas afrontas mortais. Que um homem morra mil vezes. Mil e uma já é demais.
Nou n´avons rien et nous avons tout.
Que um Deus reme connosco na viagem.
José Afonso não foi apenas cantor popular de intervenção, foi sobretudo um grande poeta e compositor de baladas e de música tradicional. De uma rara sensibilidade humana, foi sempre um lutador pela liberdade e a dignidade. Foi também cantor de fado de Coimbra quando era estudante na Universidade de Coimbra.
José Afonso ao vivo em 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, naquele que seria o seu último concerto, já doente e com problemas na voz (4 anos antes de morrer). Um concerto memorável, com vários amigos em palco: Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé.
Nasceu em Aveiro em 2 de Agosto de 1929 e faleceu em Setúbal em 23 de Fevereiro de 1987.
Formou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido a profissão de professor do ensino secundário.
A partir de 1969 dedicou-se em exclusivo à actividade musical.
Em 1969, 1970 e 1971 foi distinguido pela Casa da Imprensa como o melhor intérprete da música ligeira.
A sua canção «Grândola Vila Morena», utilizada como sinal de arranque da Revolução de 25 de Abril de 1974, tornou-se uma espécie de hino da liberdade.
A sua produção, como autor e intérprete, reveste-se de uma qualidade ímpar. Todos os seus títulos, desde os fados e baladas de Coimbra até à música de intervenção política, passando pela recolha e adaptação de temas do Cancioneiro Tradicional, se encontram no topo de qualidade da música tradicional portuguesa.
Grândola, Vila Morena é a canção composta e
cantada por Zeca Afonso escolhida pelo Movimento das Forças Armadas
(MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução. A canção
refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo, e teria
sido banida pelo regime salazarista como uma canção associada ao Comunismo. Às
zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, a canção era transmitida
na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar
as operações militares. E assim ficou associada ao 25 de Abril e ao fim da ditadura e ao início da democracia em Portugal.
Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
Somos filhos
da madrugada
Pelas praias
do mar nos vamos
À procura de
quem nos traga
Verde oliva
de flor nos ramos
Navegamos de
vaga em vaga
Não soubemos
de dor nem mágoa
Pelas praia
do mar nos vamos
À procura da
manhã clara
Lá do cimo
de uma montanha
Acendemos
uma fogueira
Para não se
apagar a chama
Que dá vida
na noite inteira
Mensageira
pomba chamada
Companheira
da madrugada
Quando a
noite vier que venha
Lá do cimo
de uma montanha
Onde o vento
cortou amarras
Largaremos
p'la noite fora
Onde há
sempre uma boa estrela
Noite e dia
ao romper da aurora
Vira a proa
minha galera
Que a
vitória já não espera
Fresca,
brisa, moira encantada
Vira a proa
da minha barca.
Discografia:
- Fados de
Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de
Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de
Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do
Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra
Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962, colectivo)
- Baladas de
Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de
Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares
de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e
Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares
de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos
Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos
Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro
Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas
do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser
Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Venham
Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos
Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o
Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República
(LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975, não
editado em Portugal)
- Com as
Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José
Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976, gravado ao
vivo)
- Enquanto
Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura
(LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de
Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Ao Vivo no
Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983, gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se
Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em
Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do
Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e
Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985, inclui Como Se Fora Seu Filho / Galinhas
do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Os
Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- Carlos
Paredes/José Afonso/Luiz Goes (CD, EMI-VC, 1992, colectivo)
- Zeca
Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993, concerto integral)
- De Capa e
Batina (CD, Movieplay, 1996)
- José
Afonso (2CD, Movieplay, 2001, colectânea)
Fontes:
- Site da
Associação José Afonso http://www.aja.pt/
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