quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

José Afonso - Poeta e músico. 30 anos de saudade




Zeca por ele mesmo:
As palavras entontecem.
Quando dispersas levantam vários rumos.


No tempo da penúria, ninguém morre de pasmo. Apurem, meus amigos, vossas contas, que as cordas da justiça já estão prontas. A morte espera-vos na justiça dos tempos. Sei que tudo está escrito e nem mesmo é preciso predizer tantos inventários. Tudo isto é triste... ó magnólias!

Tão pouco pode a natura nestas afrontas mortais. Que um homem morra mil vezes. Mil e uma já é demais.

Nou n´avons rien et nous avons tout.

Que um Deus reme connosco na viagem.




José Afonso não foi apenas cantor popular de intervenção, foi sobretudo um grande poeta e compositor de baladas e de música tradicional. De uma rara sensibilidade humana, foi sempre um lutador pela liberdade e a dignidade. Foi também cantor de fado de Coimbra quando era estudante na Universidade de Coimbra.


 José Afonso ao vivo em 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, naquele que seria o seu último concerto, já doente e com problemas na voz (4 anos antes de morrer). Um concerto memorável, com vários amigos em palco: Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé.




Nasceu em Aveiro em 2 de Agosto de 1929 e faleceu em Setúbal em 23 de Fevereiro de 1987.
Formou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido a profissão de professor do ensino secundário.
A partir de 1969 dedicou-se em exclusivo à actividade musical.
Em 1969, 1970 e 1971 foi distinguido pela Casa da Imprensa como o melhor intérprete da música ligeira.
A sua canção «Grândola Vila Morena», utilizada como sinal de arranque da Revolução de 25 de Abril de 1974, tornou-se uma espécie de hino da liberdade.
A sua produção, como autor e intérprete, reveste-se de uma qualidade ímpar. Todos os seus títulos, desde os fados e baladas de Coimbra até à música de intervenção política, passando pela recolha e adaptação de temas do Cancioneiro Tradicional, se encontram no topo de qualidade da música tradicional portuguesa.


Grândola, Vila Morena é a canção composta e cantada por Zeca Afonso escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução. A canção refere-se à fraternidade entre as pessoas de Grândola, no Alentejo, e teria sido banida pelo regime salazarista como uma canção associada ao Comunismo. Às zero horas e vinte minutos do dia 25 de Abril de 1974, a canção era transmitida na Rádio Renascença, a emissora católica portuguesa, como sinal para confirmar as operações militares. E assim ficou associada ao 25 de Abril e ao fim da ditadura e ao início da democracia em Portugal.


Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada

Na madrugada, na madrugada



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada

Vira a proa da minha barca.



Discografia:
- Fados de Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962, colectivo)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Venham Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República (LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975, não editado em Portugal)
- Com as Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976, gravado ao vivo)
- Enquanto Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura (LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Ao Vivo no Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983, gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985, inclui Como Se Fora Seu Filho / Galinhas do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Os Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (CD, EMI-VC, 1992, colectivo)
- Zeca Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993, concerto integral)
- De Capa e Batina (CD, Movieplay, 1996)
- José Afonso (2CD, Movieplay, 2001, colectânea)
Fontes:

- Site da Associação José Afonso http://www.aja.pt/

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